GERAL
Imprevisto ou falta de planejamento?
   
As versões de um problema real vivido no município

Por Eduardo Nervis Krais
21/01/2020 10h00

Um caso que tem deixado a população aflita é a irregularidade no abastecimento de água em Constantina, principalmente nos pontos mais altos. A adversidade tem causado a indignação dos munícipes e a procura por respostas e soluções se arrasta ano após ano. Entre dúvidas, questionamentos, cobranças e impaciência, a reportagem trata de trazer detalhes e posicionamentos para que se possa chegar a uma única – e importante - pergunta: quando haverá uma resolução completa do problema? 

Mais do que cavar um buraco profundo, a captação de água através de um poço artesiano necessita de uma perfuração da rocha, para, então, encontrar água. Há um processo que passa por várias camadas de terreno: aluvião ou terra, rocha alterada e finalmente rocha sã. Isto demanda de, no mínimo, 60 metros de profundidade, dependendo do local e solo.  

Após a perfuração, ainda são realizados testes de vazão para verificar a quantidade e o nível dinâmico de água que o poço produz. Somente com esses dados em mãos é definida a bomba que será utilizada no poço artesiano. 

 

A CONCESSIONÁRIA 

Sendo empresa responsável pelo abastecimento de Constantina, a Corsan tem recebido uma carga de exigência muito forte pela população, que cobra a solução para o problema; inclusive na justiça. Todavia, existem questões técnicas que são explicadas na reportagem, onde a Companhia procurou esclarecer as principais dúvidas dos clientes e apresentar um prognóstico à comunidade. 

O gerente geral da Corsan, Jocival Machado, entende que são vários fatores para que haja esta interrupção no fornecimento de água, desde momentos de estiagem até o aumento da população e o consumo em demasia. O representante da estatal explica que principalmente em períodos de festas e férias o risco de escassez é maior, já que existe um aumento da população, com a chegada de parentes e amigos das pessoas: “o crescimento populacional aumenta o volume de água distribuída, agravado por períodos sazonais como natal e ano novo.” – afirma. Em época de seca, principalmente, Machado aconselha que não se faça o uso da água para regar jardins ou gramados, ou, ao menos, que isto seja realizado de forma consciente. 

 

Com urgência, Corsan tenta tratar do problema 

Algumas medidas foram tomadas para que a parte alta do município não fique desabastecida e, nos últimos dias, já foi possível perceber um alívio considerável na escassez que vinha atrapalhando a vida dos moradores do Bairro Santa Lúcia e Bela Vista, principalmente. O gerente geral da Corsan garante que o trabalho segue forte, mas pede a compreensão das pessoas: “de forma emergencial estamos transportando água em caminhões pipa para o abastecimento da zona alta do município, pois é a mais prejudicada. Estamos trabalhando para perfurarmos novos poços mais profundos e também contamos com uma equipe de pesquisa para a redução das perdas” – garantiu. 

Perguntado sobre o risco de o problema voltar a acontecer na mesma intensidade que vinha ocorrendo, Jocival explica que não há como antever algumas situações e que o fator surpresa é sempre uma possibilidade.  

- Não temos como prever uma estiagem ou fatos isolados, como foi o caso da baixa repentina na produção do poço que parou de operar. – destacou. 

Em meio a uma crise de escassez e recursos naturais, Machado sugeriu o uso consciente da água e garantiu que o problema não é exclusividade de Constantina. Também, salientou que quando for necessário usar de grandes quantidades de água para, por exemplo, encher piscinas ou grandes reservatórios, que o indivíduo comunique a Corsan. Assim, a mesma irá sugerir a melhor forma de se proceder. Além disso, concluiu sugerindo a instalação de reservatórios particulares aos mais afetados. 

Sobre falhas ou responsabilidades, Jocival acredita que o fator determinante para o infortúnio tem sido a condição climática: “tivemos um desabastecimento pontual até que foram implementadas todas as medidas no plano de contingenciamento, que são ações previstas para estes momentos de necessidade” - afirmou. 

 

O PODER PÚBLICO 

Acerca de todo o transtorno, a Gestão Pública possui sua parcela de responsabilidade em relação aos acontecimentos, fato que não foi negado pelo prefeito municipal. Gerri Sawaris entende que a população possui o direito de realizar cobranças e questionar sobre a solução para o problema. Porém, o administrador destaca que existem alguns fatores que fogem da alçada do governo e que são de exclusividade da empresa competente, que teve seu contrato validado através de audiência pública, ou seja, com a participação da comunidade, em 2007/2008. 

- A Corsan é uma empresa pública, capacitada e muito experiente. Mas, existem alguns procedimentos que são exclusivos e de responsabilidade desta, já que possui concessão para desempenhar as funções de forma independente - explica Sawaris. 

Questionado sobre uma possível falha de gestões passadas no que tange o planejamento urbano de Constantina, Gerri garantiu ser um erro comum em várias esferas de governo. Além disso, citou que existe em tramitação cinco pedidos para novos loteamentos, o que influencia diretamente no problema em destaque. 

- Nem estou citando os loteamentos que já estão concluídos, mas estes novos espaços também vão estar solicitando pontos de água, o que acaba influenciando na disponibilidade deste bem. O município cresceu e, no momento, há a dificuldade para que se possa dar conta de toda esta demanda, já que um dos poços parou de funcionar – atentou. 

 

Município não possui barragens ou outros tipos de reservatório 

O que se sabe é que o problema tem sido recorrente nos últimos cinco ou seis anos, mas de uns meses para cá tem repercutido mais intensamente pelo agravamento da situação.  O administrador lembrou dos investimentos já realizados para o abastecimento do município, como a implantação de uma caixa d’água nos altos da cidade, unidade que passou a funcionar no final de 2018. 

Apesar da instalação do reservatório, a preocupação atual é com a escassez originada pelo fato de um poço artesiano que fornecia 10m³ por dia ter secado, já que o município não possui outra fonte de água potável, como barragens ou represas. Ou seja, com o crescimento urbano acelerado, o principal fator do imbróglio seria, realmente, ter uma fonte restrita de água para tantos pontos solicitados. Na intenção de sanar o problema do poço seco, nos próximos dias será perfurado um novo, a princípio no mesmo local do antigo. 

 

Reservatório no bairro santa lúcia está desativado desde sua instalação 

Seria exagero chamar de “elefante branco” uma caixa d’água que nunca foi inaugurada, porém o que pode sim ser dito é que há mais de 30 anos existe um reservatório inutilizado no Bairro Santa Lúcia, próximo à creche municipal, uma das regiões mais afetadas com a falta de água. Segundo o administrador, isso também é um problema de gestões passadas, que não efetivaram o uso do objeto. Uma das alternativas seria perfurar um novo poço, próximo ao reservatório, e abastecê-lo com os 100 mil litros de sua capacidade. Em caso de escassez, este serviria como um recipiente reserva que, na emergência, bombearia água à caixa principal. 

 

Gerri critica falta de recursos humanos na Corsan 

Apesar de elogiar muito o trabalho da Companhia e seus colaboradores, o prefeito constantinense ressalva que considera baixo o número de funcionários da estatal que atende a população. Gerri entende que a demanda vem aumentando e o número de funcionários tem de ser adaptado a estas modificações: 

- São dois ou três funcionários. Já “tivemos” quatro. Não é o ideal, pois geralmente não há alguém para o cidadão poder se dirigir, já que o trabalho dos colaboradores é extenso.  

A prefeitura municipal tem cedido à Corsan equipamentos, caminhões e mão-de-obra para colaborar na medida do que é capaz. 

Para fechar, o prefeito Gerri concluiu que a responsabilidade maior ainda é da Corsan, que possui a concessão. Porém, destacou que a maioria dos problemas se dá realmente na escassez da água e orientou as pessoas para que tomem cuidado e valorizem este bem de todos, economizando o máximo e procurando a Companhia quando do uso de água em demasiado, como por exemplo para piscinas de grande porte. Além disso, se comprometeu em fazer o que for possível para a resolver o quanto antes este infortúnio e transferir a cobrança e preocupação das pessoas, que o tem como representante, para os responsáveis pelo serviço. 

 

Poder Legislativo de Constantina também se manifesta sobre falta d’água 

Em matéria já publicada na semana passada, o presidente da câmara de vereadores, Neocadio Di Domenico, garantiu que os Poderes Legislativo e Executivo estão trabalhando para colaborar na resolução do problema.  

Após a reunião entre as partes envolvidas em todo o processo, algumas soluções já foram tomadas, como a vinda dos caminhões pipa e agora a perfuração de um novo poço artesiano. 

 

A POPULAÇÃO 

Em meio a tudo que vem envolvendo o caso de escassez em Constantina, buscou-se oportunizar também a opinião dos mais afetados. Andreivi Lazaretti, empresário do município, morador do Bairro Santa Lúcia, é apenas um dos tantos que vem sentindo na pele o problema em questão e falou à reportagem. 

Cerca de 40 famílias moveram processo judicial contra a estatal cobrando uma agilização na resolução do inconveniente. Um dos pedidos é de que as pessoas sejam notificadas quando ocorrer a possibilidade de faltar água. Porém, segundo Andreivi, há cerca de cinco anos é vivido este mesmo impasse pelos moradores da parte alta e nos últimos tempos isso tem se agravado. 

- Nos reunimos algumas vezes e decidimos mover um processo judicial, onde acabamos vencendo em todas as instâncias e várias famílias foram indenizadas. Mesmo assim, ainda seguimos sofrendo com isso – reclamou. 

O constantinense, ainda, entende que a melhor forma de contribuição da sociedade, além de realizar certa economia e um uso consciente, é pressionar a concessionária e defender o direito a receber uma água de qualidade, já que o cidadão paga uma taxa para contar com o serviço. 

- Como podemos economizar uma água que nem chega nas torneiras? A sociedade não tem muita participação nessa culpa, pois são os últimos a serem consultados para saberem se estão recebendo um serviço de qualidade.” – questionou. Ainda, cobrou que, na medida em que a cidade cresce e novos loteamentos são construídos, seja realizado um melhor planejamento para que haja suprimento para todos. 

Na opinião de Andreivi, há uma falha no planejamento conjunto entre Poder Público e Corsan, no sentido de prever uma estrutura que possa suportar a demanda de água no município. 

- Acredito que nós somos vítimas de um descaso. As pessoas consomem água, pagam uma taxa pelo direito ao funcionamento regular do serviço, portanto isto deve ser respeitado e as devidas soluções devem ser tomadas – concluiu. 

 

 

SOLUÇÕES 

Ao fim e ao cabo, a Corsan tem trabalhado nas últimas semanas para sanar o problema o mais rápido possível. Uma solução foi a perfuração de um novo poço artesiano para substituir local onde houve a falta de operação. Desde o último sábado está sendo feito um trabalho próximo à saída para o Engenho Velho, onde a perfuração já atingiu 125 metros de profundidade. Isso explica os motivos de não ser possível realizar tal obra em qualquer lugar, principalmente em localidades mais altas. Hoje, o município conta com seis poços, sendo que um acabou por secar, tendo cinco em funcionamento. 

Já o prefeito Gerri comentou da possibilidade de ativar o reservatório presente no Bairro Santa Lúcia, para servir de subsídio à Caixa D’água maior em casos semelhantes a estes. O fato é que, com a vinda dos caminhões pipa, a parte da alta da cidade pôde perceber uma melhora significativa na qualidade do serviço nos últimos dias, pelo menos até que tudo esteja em perfeitas condições. 

De modo geral, a população pode colaborar racionando o uso da água e seguindo as orientações técnicas quando houver alguma mudança brusca na utilização do recurso. 

Assim, todos se empenhando em realizar o seu papel, certamente haverá uma breve resolução da confusão instaurada. 

 

 

 

 

 

   

  

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